Para Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, a dança do ventre mostra como uma expressão artística pode preservar referências e, ao mesmo tempo, incorporar novas possibilidades. Tradicionalmente associada a movimentos marcados do quadril, ondulações e uma estética reconhecível, essa dança passou por transformações ao circular por diferentes contextos culturais.
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O que muda quando uma dança tradicional encontra o contemporâneo?
A dança contemporânea não corresponde a uma técnica única. Ela reúne diferentes formas de criação e costuma valorizar experimentação, pesquisa corporal, improvisação e construção de sentidos para além de movimentos previamente estabelecidos. Isso permite que linguagens distintas sejam colocadas em diálogo dentro de uma mesma composição. A proposta pode partir de técnicas já conhecidas, mas reorganizá-las de acordo com novas intenções, explorando ritmo, espaço, dinâmica e presença cênica de maneiras diferentes.
Na dança do ventre, movimentos tradicionais podem ser reorganizados em novas dinâmicas e coreografias sem perder sua identidade. Segundo Daugliesi Giacomasi Souza, essa transformação também permite improvisações, criando novas relações entre corpo, música e espaço. Essa liberdade amplia as possibilidades de expressão sem romper com as referências técnicas da modalidade. Assim, a tradição permanece presente enquanto novas formas de movimentação podem ser exploradas.
Tradição precisa permanecer igual para continuar sendo tradição?
A ideia de tradição como algo necessariamente imutável não corresponde à trajetória histórica da própria dança do ventre. A prática passou por transformações ao ser deslocada de seus contextos de origem e incorporada a diferentes ambientes culturais, mantendo determinados movimentos enquanto adquiria novas características. Esse percurso ajuda a compreender que uma expressão artística pode preservar elementos reconhecíveis e, ao mesmo tempo, apresentar mudanças na maneira como é ensinada, interpretada e apresentada ao público.

Daugliesi Giacomasi Souza destaca que esse processo também exige cuidado com a maneira de contar sua história. Algumas narrativas muito difundidas sobre origens ritualísticas antigas da dança não podem ser tratadas simplesmente como fatos históricos comprovados. Por isso, preservar uma tradição também envolve reconhecer sua complexidade e diferenciar referências culturais de afirmações que não possuem comprovação suficiente. Essa postura contribui para que a prática seja valorizada sem depender de versões simplificadas sobre sua origem.
Como a fusão amplia as possibilidades de expressão?
A aproximação com outras linguagens pode resultar em diferentes formas de dança de fusão. Existem propostas que combinam referências da dança do ventre com elementos de flamenco, danças indianas, hip hop e outras matrizes corporais. O objetivo não é apenas acrescentar movimentos diferentes, mas construir uma linguagem híbrida com identidade própria. Para isso, é necessário compreender as características de cada referência e encontrar pontos de contato que façam sentido dentro da proposta coreográfica, evitando que a combinação pareça apenas uma reunião aleatória de técnicas.
Nesse contexto, Daugliesi Giacomasi Souza observa que a relação entre tradição e contemporaneidade pode ser compreendida também como uma questão de composição. Em vez de escolher entre preservar uma referência ou experimentar algo novo, o processo criativo pode investigar como diferentes elementos convivem, desde que suas características sejam compreendidas e utilizadas com coerência.
O que a transformação revela sobre quem dança?
A atualização de uma linguagem artística também modifica a maneira como o corpo pode ser percebido em cena. Na dança do ventre, os movimentos podem assumir diferentes sentidos simbólicos e expressivos, relacionados à feminilidade, à ancestralidade e às experiências individuais de quem dança. Dessa forma, a interpretação não depende apenas da execução técnica, mas também da intenção colocada em cada gesto e da maneira como ele é inserido na composição.
Isso ajuda a explicar por que a mesma técnica pode produzir experiências muito diferentes. Uma bailarina pode trabalhar a precisão dos movimentos tradicionais, enquanto outra pode utilizar esses mesmos recursos em uma investigação mais experimental. A existência dessas possibilidades não elimina a identidade da dança, mas mostra como uma linguagem corporal pode continuar produzindo novos significados, comenta Daugliesi Giacomasi Souza.
Quem se interessa por cultura, estética e novas formas de expressão pode acompanhar o trabalho de Daugliesi Giacomasi Souza e da DGdecor pelo Instagram @dgdecor.construir.

